Desbravadores abrem rotas do turismo

O distrito de Morro Vermelho, em Caeté, que no ciclo do ouro chegou a contar com mais de 10 mil pessoas e hoje tem 938 habitantes, não foi apenas sede da primeira guerra civil do Brasil, da primeira eleição direta das Américas, da resistência aos exorbitantes aumentos de impostos e de seguidas rebeliões e motins. O povoado guarda um rico acervo de centenas de minas de ouro, sofisticados engenhos de apuração do início do século 18 e ruínas de um arraial que servia de entreposto comercial para bandeirantes, tropeiros e mascates. Isso foi o que revelou, em palestra para autoridades e promotores de turismo de Caeté, o grupo “Desbravadores”, formado por egressos de Morro Vermelho e que vem atuando há dois anos para resgatar o patrimônio arquitetônico, cultural, ambiental e imaterial do povoado e torná-lo acessível à visitação pública.

Entre as descobertas do projeto, denominado “Resgate Colonial”, estão as ruínas de um posto fiscal da Coroa Portuguesa, por onde escoava, desde 1701, até Parati e Portugal todo o ouro extraído em ribeirões, córregos e escavações no distrito e em Cuiabá, Caeté e Serra da Piedade.

A expedição, ainda em andamento, foi dividida em seis importantes marcos turísticos de Morro Vermelho: “Patrimônio Histórico”, enfocando as centenas de minas de ouro e demais sítios do século 18; “Pat

rimônio Ambiental”, abrangendo as riquezas do Parque Nacional Serra do Gandarela, cachoeiras, cascatas, lagoas e mananciais de preservação; “Patrimônio Cultural”, citando as igrejas centenárias e locais de romarias e peregrinações; “Patrimônio Imaterial”, abordando a Cavalhada e as festas religiosas e populares no povoado; “Patrimônio Turístico”, destacando as trilhas ecológicas, locais de caminhadas e ciclismo, artesanato e gastronomia; e “Patrimônio de Liberdade”, enfocando a Guerra dos Emboabas, o Levante das Bateias, a estrada real e as forças militares no povoado no século 18.

Engenhos do ouro

Além de localidades turísticas já conhecidas, como Pedra do Sino, Cruzeiro do Rosário, Cruzeiro da Santa Cruz e Cachoeira de Santo Antônio, o grupo conseguiu identificar relíquias dos séculos 17 e 18, passíveis de programas turísticos consistentes. Na Fazenda do Cutão ou Furnas de Caeté, foram documentadas as ruínas do Palácio do Barão da Estrela, de um paredão de pedra destinado a represar águas que seguiam por um túnel até um grande engenho de apuração de ouro. Na mesma região foram identificadas dezenas de minas de ouro, além da Cachoeira das Estrelas.

Na localidade de Carrancas, a expedição visitou dezenas de minas e uma casa de apuração ouro. Nesta mesma região, o grupo esteve nas ruínas do Arraial de Viracopos, que no século 18 era um entreposto com 14 residências e sete pontos comerciais. Uma mina no quintal de uma casa na área urbana do povoado também foi visitada.

Em outra etapa, os desbravadores documentaram, desde a Fazenda do Geriza até Raposos, passando por Barão de Cocais, Santa Bárbara e Rio Acima, as belezas do Parque Nacional Serra do Gandarela, criado pelo governo federal em 2014, passando por Barão de Cocais, Santa Bárbara e Rio Acima. No parque foi constatada uma diversidade exuberante de fauna e flora, além cachoeiras, lagoas e mananciais de água.

Ainda dentro do Parque do Gandarela, os Desbravadores estiveram no Retiro dos Capetas, que guarda um rico acervo histórico por ter sediado um posto fiscal da Coroa Portuguesa. Também foi documentada uma casa de pedra, em ruínas, que teria sido hospedaria de fiscais e de tropas militares.

Riqueza ambiental

Nas suas pesquisas o grupo descobriu, por documentos encontrados em museu de Portugal, que em 1719 chegaram ao Brasil duas Companhias de Cavalaria de Dragões Reais, força especializada ligada diretamente ao rei. Uma delas foi destacada para Morro Vermelho, onde já funcionavam a Companhia de Ordenança a Pé de Morro Vermelho, a Companhia de Ordenança a Pé dos Homens Pardos Libertos de Morro Vermelho e a Guardamoria de Terras e Águas de Morro Vermelho e Viracopos.

A expedição documentou a Pedra do Sino, que, ao ser tocada, produz som de bronze ouvido a centenas de metros. Também foram visitados centros centenários de romarias, como o Cruzeiro do Morro da Santa Cruz, que deu nome ao povoado, e o Cruzeiro do Rosário.

Emprego e renda

Para o arquiteto e urbanista Reginaldo Pinheiro, um dos idealizadores da expedição, Morro Vermelho vive desde o fim do ciclo do ouro uma grande crise econômica, o que vem forçando trabalhadores, sobretudo os mais jovens, a migrarem para outros locais em busca de trabalho e sobrevivência. “Durante encontros informais, percebemos que, pequenas comunidades, como Lavras Novas, São Sebastião das Águas Claras (Macacos) e outras acharam soluções com o turismo, garantindo emprego e renda para a população”, explicou.

Para o engenheiro de produção Leonardo Pinheiro, também participante do grupo, mesmo com as dificuldades de falta de guias, a equipe de emigrados do Morro Vermelho enfrentou intempéries e transtornos para chegar até as relíquias históricas. Ele revelou que participam do grupo egressos do distrito que moram em Caeté, Sabará, Belo Horizonte e até em Aracruz, no Espírito Santo.

O jornalista Geraldo Lopes, também emigrado do povoado, informa que todos os pontos de interesse estão sendo fotografados e documentados. A equipe busca informações em museus, arquivos públicos e bibliotecas para tecer histórias bem próximas da realidade do ciclo do ouro”, observa. Ele salienta que, após as descobertas, o grupo pretende buscar o apoio de autoridades e técnicos para abrir os caminhos e tornar as riquezas culturais passíveis de visitação pública.

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